Santa Catarina ultrapassa São Paulo na entrega de galpões logísticos pela primeira vez
Estado entregou 277 mil m² de novos empreendimentos no segundo trimestre, volume 45% superior ao do então líder nacional
- Estado saiu da sexta posição no fim de 2024 e deve encerrar 2026 na vice-liderança nacional
- Expansão dos portos, benefícios tributários e avanço do comércio eletrônico impulsionam o mercado catarinense
- Vacância nacional cai ao menor nível da série histórica, enquanto a ocupação de galpões bate recorde
O mapa da logística brasileira ganhou um novo protagonista. No segundo trimestre de 2026, Santa Catarina superou São Paulo pela primeira vez na entrega de novos galpões logísticos, segundo dados da JLL divulgados pelo Metro Quadrado: foram 277 mil m² de novo estoque no estado catarinense, ante 191 mil m² em São Paulo, mercado que historicamente lidera com folga esse tipo de ranking.
A virada não é um evento isolado. No quarto trimestre de 2024, Santa Catarina ocupava apenas a sexta posição na entrega de novo estoque logístico no País. Um ano depois, no mesmo período, o estado alcançou a vice-liderança, com 75,1 mil m² de galpões de alto padrão entregues, superando Minas Gerais, historicamente o segundo maior mercado logístico do Brasil.
Para 2026, a projeção da JLL é que Santa Catarina encerre o ano na vice-liderança nacional, respondendo por 10,1% do novo estoque esperado no País, atrás apenas de São Paulo, com 39,6%.

O que está por trás da aceleração
O crescimento logístico catarinense reflete a busca por áreas fora do principal polo de galpões do País. Em São Paulo, a escassez de terrenos bem localizados e o custo elevado das áreas têm dificultado o desenvolvimento de novos projetos especulativos.
André Romano, gerente da Divisão Industrial e Logística da JLL, também atribui o movimento ao amadurecimento do mercado catarinense, que passou a sustentar projetos especulativos — ou seja, galpões construídos antes mesmo de terem um inquilino garantido. Até pouco tempo atrás, esse modelo era considerado inviável no estado devido ao custo mais elevado da construção no litoral.
“Isso faz com que os ativos estratégicos sejam mais disputados, levando as empresas a precisarem planejar suas movimentações de longo prazo e serem ágeis na tomada de decisão. Quem demora a escolher sobre uma locação tem perdido oportunidades”, afirma Romano.
Outros fatores ajudam a explicar o movimento. Um deles é a expansão dos portos de Itajaí, Navegantes e Itapoá, que proporcionou a Santa Catarina uma estrutura própria para a entrada de mercadorias e reduziu a dependência do eixo paulista. Outro é o regime tributário catarinense, que permite postergar o recolhimento do ICMS na importação e, em determinadas operações, reduzir a alíquota — um diferencial competitivo para as atividades de distribuição.
Também contribui para esse cenário a ampliação da presença do Mercado Livre e da Shopee fora do eixo tradicional. As duas empresas estão entre as maiores locatárias de galpões do Brasil, enquanto Santa Catarina e Pernambuco despontam como os mercados mais aquecidos depois de São Paulo.
A queda da vacância dos galpões catarinenses também aparece em levantamento da Binswanger Brazil. O relatório aponta que a taxa de vacância dos empreendimentos de alto padrão no estado recuou de 9,2%, no fim de 2025, para 7,2% no primeiro trimestre de 2026. O movimento indica que a oferta ainda não acompanha a demanda, apesar do ritmo acelerado de entregas.
Galpões de alto padrão mantêm recorde de ocupação
O estudo da JLL aponta ainda que o primeiro semestre de 2026 registrou mais um recorde no mercado brasileiro de galpões logísticos de alto padrão. A taxa de vacância caiu para 5,5%, o menor índice da série histórica, em um cenário de absorção também recorde.
Os galpões de alto padrão são classificados como A, AA ou AAA e contam com instalações avançadas, como pisos de alta resistência, climatização e iluminação adequadas, segurança reforçada e, muitas vezes, certificação ambiental. Essas características favorecem operações que exigem agilidade e qualidade nas entregas, especialmente as ligadas ao comércio eletrônico.
No período, a absorção bruta acumulada chegou a 2,8 milhões de m², enquanto a absorção líquida alcançou 2,1 milhões de m². Os volumes já correspondem, respectivamente, a 60% e 68% dos resultados de 2025, ano que registrou o melhor desempenho histórico de locações.
São Paulo continua como líder do mercado brasileiro de galpões. Com taxa de vacância de 5%, abaixo da média nacional e a menor já registrada no estado, concentrou 46% da absorção líquida do país no segundo trimestre, equivalente a 446 mil m². De acordo com a JLL, somente o Mercado Livre respondeu pela locação de 236 mil m².
No trimestre, a absorção líquida chegou a 140 mil m² em Pernambuco e a 113 mil m² em Santa Catarina. Outro destaque é o Paraná, que apresenta uma das menores taxas de vacância do país, de 2,2%.
Segundo Rafael Picerni, analista de Pesquisa e Estratégia da JLL, Minas Gerais e Rio de Janeiro permanecem como importantes polos logísticos, mas o avanço de outros estados mostra que a demanda por espaços de qualidade está se nacionalizando.
A média nacional dos aluguéis, indicador importante para avaliar a viabilidade de novos projetos, subiu 7,8% em um ano, para R$ 30,70 por m², alcançando pela primeira vez a faixa dos R$ 30.